quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

O menino feliz demais

Este conto é dedicado ao Guilherme.

Havia um menino feliz. Feliz demais na opinião de muitos. Sua alegria era tão enérgica que, até dormindo, raios de felicidade saíam de seu corpo faiscando como se fossem pequenos curtos-circuitos. Isto não era visível, mas era possível sentir.

Sempre que o menino acordava queria que todos acordassem junto com ele. A vida era bela demais para que ele deixasse os outros perdê-la por um instante sequer. Ele era empolgado consigo mesmo e até sozinho conseguia manter elevado seu nível de entusiasmo com a vida. E isto é dificílimo de conseguir.

Sua normalidade era sempre acima dos demais, mais intensa. Ao falar, o tom de voz sempre era aumentado. Ao brincar, usava todas as energias do seu corpo. Ficar sentado raramente funcionava quando havia outras opções mais interessantes ao seu redor. Seus pensamentos pipocavam um atrás do outro, sem nenhum descanso, de forma bem bagunçada. Ele parecia uma criança normal, como a maioria das outras crianças eram.

No entanto, havia algo naquele menino que incomodava demais as pessoas que conviviam com ele. Começaram a dizer que ele estava fora do padrão e que era doente. Diziam que era um caso raro. Logo estava diagnosticado: felicidade demais. Era uma doença. Assim, como a tristeza em excesso, a felicidade de sobra também precisava ser neutralizada.

Devido à raridade da enfermidade, o caso foi considerado questão de Estado, segurança nacional. Se fosse contagioso, o mundo ficaria de pernas para o ar. Se não fosse, também não era um exemplo a ser seguido.

Foi montada uma mega operação para tentar neutralizar a felicidade do garoto. Muitas cabeças, das mais inteligentes, começaram a pensar em como tirar toda aquela euforia do menino. Tiveram a primeira ideia: prenderam-no na imaginação de um garoto normal, pois os especialistas pensavam que “Um lugar calmo e com pensamentos leves, ordenados e corretos será o suficiente para neutralizá-lo.”. Mas não foi. Aquela simples imaginação normal de outro garoto não aguentou os pensamentos eufóricos do menino e logo se rompeu, livrando-o daquela prisão.

Estando livre, percebeu que precisava fugir. Mais cedo ou mais tarde, as pessoas que o prenderam viriam atrás dele. Então, focou toda sua energia em um só objetivo: fugir. Mas era muito difícil para ele se concentrar em uma só tarefa quando ao seu redor havia tantas outras coisas interessantes. Deu início à sua fuga, mas esta não durou muito tempo porque logo depois estava brincando com filhotes de cães em um campo aberto e cheio de flores. Era muito difícil focar em um só propósito.

Então, ele foi novamente raptado por aquela sociedade. Amarraram-no em pé a uma árvore de forma tão forte que não conseguia mexer nenhuma parte do seu corpo. Estava com as mãos para trás e logo colocaram uma venda em seus olhos para que não visse o que aconteceria. A segunda ideia era usar a pílula da neutralidade, que ainda estava em testes iniciais. Devido às circunstâncias ninguém se opôs, pois seria mesmo necessário testá-la em humanos.

Abriram a boca do garoto e o forçaram a tomar aquela pílula. Todos os dias, uma pessoa diferente da sociedade ia até o garoto amarrado na árvore e o forçava a engolir aquele medicamento. Isto se repetiu por meses até que meses se tornaram anos. Desamarram-no quando foi dado por curado: já não havia energia, nem felicidade ali. Não incomodaria mais ninguém. Agora neutro, o menino estava livre para viver sua vida da forma como lhe fora escolhida. Foi assim por algum tempo.

Com o passar dos anos, a neutralidade do menino foi ficando de lado e ele começou a sentir novamente uma pontadinha de alegria na alma. Era uma boba sensação de felicidade misturada com empolgação. Mais velho e experiente, percebeu que não poderia demonstrar isto para ninguém. Deitado em sua cama, fez planos de fugir para uma outra sociedade. Tentando dormir, mexia sua perna de um lado para o outro, como sempre fizera antes de ter sido neutralizado.

A fuga aconteceu uma semana depois. As pessoas ditas neutras não notaram a ausência do menino porque não se importavam com outras pessoas neutras. A sociedade estava bem mais preocupada em neutralizar pessoas que eram diferentes em sua essência. Assim, aquela sociedade foi extinta 50 anos depois. Na realidade, a neutralidade era bem incomum. No fundo, no fundo, todos tinham sua peculiaridade que lhes tiravam a característica de neutros e para não criarem raízes presos à árvore, preferiam sumir com o vento.    


Eduardo Franciskolwisk

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