Conhecendo o Leitor

Quero saber mais sobre você!

sábado, 4 de abril de 2026

A morte dos que não morreram

 

Há alguns anos venho sentindo uma dor. Uma dor diferente e que é ao mesmo tempo um incômodo.
 
É uma coisa estranha e confusa. Me recusei a aceitar todo este tempo porque não fazia sentido nenhum e nem tinha lógica. Mas é muito possível e extremamente comum. Com o passar dos anos cheguei a esta conclusão:
 
As pessoas morrem para a nossa vida e continuam existindo e vivendo a vida delas.
 
É aquele amigo de infância que você nunca mais conviveu depois de adulto. Ele está vivo, mas já não é a mesma pessoa. Aquela pessoa que você conhecia morreu.
 
É aquele familiar que você tinha muito convívio e que agora não tem quase contato nenhum. Até chegar o dia que vocês não se vêem nunca mais. Ou quando se vêem é um “Oi” e “Tchau” artificial. Aquela relação genuína e de proximidade não existe mais. Morreu.
 
Então, aquela pessoa morreu para você. Ela existe no mundo, mas não faz mais parte do seu mundo.
 
Preciso aceitar o fato de que as pessoas morrem em vida. Tenho relutado bastante com isto, tenho me recusado a aceitar, mas enfim acho que estou entendendo e aceitando os fatos.
 
A dor e o incômodo que tenho sentido é um luto. Um luto pela morte de alguém que não morreu.
 
É triste porque é uma morte opcional. Alguém optou por não ter mais um relacionamento, por não conviver mais. E é uma morte confusa porque morreu, mas pode aparecer de vez em quando para te incomodar, como se fosse um fantasma.
 
A solução que achei é meio radical: cortar contato de vez. Morreu, morreu. Senão fica um vivo meio moribundo e eu fico arrastando correntes. Assim, a dor do luto nunca passa.
 
Eduardo Franciskolwisk

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O Coelho






       
       


Um dia, eu estava voltando para casa de moto, feliz e saltitante. (cantarole na sua cabeça música dos Smurfs: “La la la...”). Quando cheguei na rua do lado de casa, vi um coelho atravessando a rua. Ele estava feliz e saltitante e acho que cantarolava “La la la...” (a música dos Smurfs).
 
Uma cena surreal. Nunca na minha vida eu vi um coelho atravessando uma rua movimentada.
 
Olhei para o lado e tinha uma mulher passeando com o cachorro na coleira. Pensei que o coelho era dela. Achei melhor parar a moto e tentar ajudar ela a pegar o coelho.
 
Agora ele estava parado na sarjeta. Era muito fácil, era só ir lá, pegar o coelho e entregar para ela.
 
Quando cheguei perto do coelho, ele saiu correndo saltitante. O bicho era rápido. Mas eu fui atrás dele. E a cada vez que eu chegava perto dele, ele corria de mim. Saltitante. E eu corria atrás dele de novo.
 
Foi uma cena linda. Eu de uniforme do trabalho (sapato, calça e camisa social) com um capacete na cabeça correndo atrás de um coelho no meio dos carros. Ele ia pra cá e pra lá. Eu ia atrás todo engomadinho e com uma cabeçona desproporcional.
 
Depois de tomar vários olés do coelho, eu consegui pegar ele. Que coelho macio! Ele era bem fofinho e com pelos sedosos. Aí, fui devolver para a moça que estava com o cachorro.
 
Ela disse que o coelho não era dela:
 
— Não é meu, mas acho que fugiu desta casa aqui. Eu já bati, mas ninguém atende.
 
Como eu gostei muito da maciez do coelho, falei que ia levar ele para casa e que se alguém procurasse, ele estaria lá.
 
Eu fiquei muito feliz por ter encontrado aquele coelho. Eu não me lembro de ter pegado um coelho na mão antes. Era macio e sedoso. Ele devia fazer propaganda de shampoo.
 
Em casa, tranquei o cachorro e fiquei aproveitando o coelho. Tirei muitas fotos e filmei ele. Até tentei pegar ele pelas orelhas para dar uma coelhada em alguém, mas não é igual nos gibis.
 
Analisando bem o coelho, comecei a suspeitar que era uma coelha.
 
Peguei água para ele e coloquei num prato raso porque eu tinha certeza que ele não conseguiria tomar água na vasilha do cachorro. Também peguei uns 10 grãos de ração do doguinho com a mão e dei para a coelha. Achei que ela não fosse comer, mas ela devorou tudo.
 
Quando fui buscar mais ração, peguei a vasilha inteira do cachorro. Quando coloquei a vasilha no chão, a coelha ouviu o barulho da ração e avançou em mim. Eu me assustei, mas ela apenas queria comer mais comida.
 
A safada consegue ficar de pé, achei que ela só ficava na posição de coelho, ou seja, bem perto do chão (estilo coelho rebaixado).
 
Depois de me divertir e aproveitar a coelha, fui procurar o dono.
 
Bati na casa da frente, que tinham se mudado há pouco tempo, mas não era deles. Depois, fui para a rua onde tinha achado a coelha. Bati na casa onde a mulher achava que ela tinha fugido e veio uma mulher-menina.
 
Ela podia ser velha, mas parecia ser nova.
 
Perguntei se ela tinha perdido um coelho e ela disse que sim, que estava procurando, mas quando cheguei ela estava sentada e mexendo no celular. Não parecia muito preocupada com o coelho. Mesmo assim não desconfiei da palavra dela e fui buscar o “entregador de ovos de páscoa”.
 
Mas demorei de propósito para devolver o coelho. Eu queria que meu cachorro conhecesse o coelho, mas tinha medo dele morder. No final, ele não mordeu.
 
Quando levei a coelha de volta, descobri que o nome dela era Zara. Além da mulher-menina, tinham 2 crianças. Pude perceber que a mulher-menina era uma adolescente e os meninos eram primos dela. Fiquei conversando com ela por um tempo. Ela não era daqui da cidade e tinha outro coelho. Entendi que ela veio passar as férias aqui na casa da tia e trouxe os coelhos.
 
O coelho era mesmo dela por que se não fosse, as crianças ficariam muito interessadas no coelho, mas elas cagaram pra ele. A própria menina não estava desesperada por causa do coelho, motivo pelo qual eu acho que ela era adolescente.
 
Felicidade. Eu contei tudo isto porque nesta 1 hora em que eu paguei mico correndo atrás da coelha de capacete, cuidei da coelha com água e comida, mexi nela de tudo quanto é jeito, tirei fotos e fiz vídeos, depois fui atrás do dono pela vizinhança e fiquei conversando com a menina por um tempo, eu senti felicidade. Fazia muito tempo que eu não sentia isto.
 
Nos últimos 10 dias, eu estava bastante tenso devido a algumas situações da vida normal. Na verdade, acho que estava meio depressivo por causa das festas de final de ano.
 
Aquele dia com o coelho, foi de uma certa maneira um alívio. O coelho simboliza renascimento, vida nova. Além disso, o pé de coelho traz boa sorte e aquela coelha tinha 2 pés. Sorte em dobro. Mas nada se compara aos instantes de felicidade que eu senti. Fazia muito tempo que eu não sentia felicidade genuína.
 
Eduardo Franciskolwisk

TOP 10 do Mês

Arquivo do Blog