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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O Coelho






       
       


Um dia, eu estava voltando para casa de moto, feliz e saltitante. (cantarole na sua cabeça música dos Smurfs: “La la la...”). Quando cheguei na rua do lado de casa, vi um coelho atravessando a rua. Ele estava feliz e saltitante e acho que cantarolava “La la la...” (a música dos Smurfs).
 
Uma cena surreal. Nunca na minha vida eu vi um coelho atravessando uma rua movimentada.
 
Olhei para o lado e tinha uma mulher passeando com o cachorro na coleira. Pensei que o coelho era dela. Achei melhor parar a moto e tentar ajudar ela a pegar o coelho.
 
Agora ele estava parado na sarjeta. Era muito fácil, era só ir lá, pegar o coelho e entregar para ela.
 
Quando cheguei perto do coelho, ele saiu correndo saltitante. O bicho era rápido. Mas eu fui atrás dele. E a cada vez que eu chegava perto dele, ele corria de mim. Saltitante. E eu corria atrás dele de novo.
 
Foi uma cena linda. Eu de uniforme do trabalho (sapato, calça e camisa social) com um capacete na cabeça correndo atrás de um coelho no meio dos carros. Ele ia pra cá e pra lá. Eu ia atrás todo engomadinho e com uma cabeçona desproporcional.
 
Depois de tomar vários olés do coelho, eu consegui pegar ele. Que coelho macio! Ele era bem fofinho e com pelos sedosos. Aí, fui devolver para a moça que estava com o cachorro.
 
Ela disse que o coelho não era dela:
 
— Não é meu, mas acho que fugiu desta casa aqui. Eu já bati, mas ninguém atende.
 
Como eu gostei muito da maciez do coelho, falei que ia levar ele para casa e que se alguém procurasse, ele estaria lá.
 
Eu fiquei muito feliz por ter encontrado aquele coelho. Eu não me lembro de ter pegado um coelho na mão antes. Era macio e sedoso. Ele devia fazer propaganda de shampoo.
 
Em casa, tranquei o cachorro e fiquei aproveitando o coelho. Tirei muitas fotos e filmei ele. Até tentei pegar ele pelas orelhas para dar uma coelhada em alguém, mas não é igual nos gibis.
 
Analisando bem o coelho, comecei a suspeitar que era uma coelha.
 
Peguei água para ele e coloquei num prato raso porque eu tinha certeza que ele não conseguiria tomar água na vasilha do cachorro. Também peguei uns 10 grãos de ração do doguinho com a mão e dei para a coelha. Achei que ela não fosse comer, mas ela devorou tudo.
 
Quando fui buscar mais ração, peguei a vasilha inteira do cachorro. Quando coloquei a vasilha no chão, a coelha ouviu o barulho da ração e avançou em mim. Eu me assustei, mas ela apenas queria comer mais comida.
 
A safada consegue ficar de pé, achei que ela só ficava na posição de coelho, ou seja, bem perto do chão (estilo coelho rebaixado).
 
Depois de me divertir e aproveitar a coelha, fui procurar o dono.
 
Bati na casa da frente, que tinham se mudado há pouco tempo, mas não era deles. Depois, fui para a rua onde tinha achado a coelha. Bati na casa onde a mulher achava que ela tinha fugido e veio uma mulher-menina.
 
Ela podia ser velha, mas parecia ser nova.
 
Perguntei se ela tinha perdido um coelho e ela disse que sim, que estava procurando, mas quando cheguei ela estava sentada e mexendo no celular. Não parecia muito preocupada com o coelho. Mesmo assim não desconfiei da palavra dela e fui buscar o “entregador de ovos de páscoa”.
 
Mas demorei de propósito para devolver o coelho. Eu queria que meu cachorro conhecesse o coelho, mas tinha medo dele morder. No final, ele não mordeu.
 
Quando levei a coelha de volta, descobri que o nome dela era Zara. Além da mulher-menina, tinham 2 crianças. Pude perceber que a mulher-menina era uma adolescente e os meninos eram primos dela. Fiquei conversando com ela por um tempo. Ela não era daqui da cidade e tinha outro coelho. Entendi que ela veio passar as férias aqui na casa da tia e trouxe os coelhos.
 
O coelho era mesmo dela por que se não fosse, as crianças ficariam muito interessadas no coelho, mas elas cagaram pra ele. A própria menina não estava desesperada por causa do coelho, motivo pelo qual eu acho que ela era adolescente.
 
Felicidade. Eu contei tudo isto porque nesta 1 hora em que eu paguei mico correndo atrás da coelha de capacete, cuidei da coelha com água e comida, mexi nela de tudo quanto é jeito, tirei fotos e fiz vídeos, depois fui atrás do dono pela vizinhança e fiquei conversando com a menina por um tempo, eu senti felicidade. Fazia muito tempo que eu não sentia isto.
 
Nos últimos 10 dias, eu estava bastante tenso devido a algumas situações da vida normal. Na verdade, acho que estava meio depressivo por causa das festas de final de ano.
 
Aquele dia com o coelho, foi de uma certa maneira um alívio. O coelho simboliza renascimento, vida nova. Além disso, o pé de coelho traz boa sorte e aquela coelha tinha 2 pés. Sorte em dobro. Mas nada se compara aos instantes de felicidade que eu senti. Fazia muito tempo que eu não sentia felicidade genuína.
 
Eduardo Franciskolwisk

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Enterprise - O dia que agarrei uma menina de 8/9 anos

Enterprise: brinquedo girando


Posição: como ficam 2 pessoas
no carrinho do Enterprise


Aqui na minha cidade, tem uma festa de peão muito conhecida no Brasil. “Nóis, os caipira” da cidade, só tínhamos acesso a coisas novas e diferentes durante o período que acontecia esta festa.
 
Então, McDonald´s, crepes suíços e parque de diversões com brinquedos “irados” eu só via nesta época do ano.
 
Um destes brinquedos era o “Enterprise”. Tinha que ser muito corajoso para ir nesta bagaça. O brinquedo é um círculo com carrinhos fechados com grades que começa girando como se fosse um carrossel, mas bem rápido. E o que deixa ele radical é que ele vai levantando até ficar em pé como se fosse uma roda gigante. Porém, quem está nos carrinhos, chega a ficar de ponta cabeça girando num looping.
 
Na vida, eu fui poucas vezes no Enterprise. Exagerando, posso dizer que fui 3 vezes.
 
Naquele dia, eu estava com alguns amigos, mas estávamos em número ímpar. Como sempre fui muito querido socialmente pelas pessoas, sobrou eu para ir sozinho em um carrinho que comportava apenas 2 pessoas.
 
Mas, com a fila do brinquedo cheia, com certeza alguém aleatório iria comigo. “Meio chato, mas vou fazer o quê?” – pensei.
 
Na fila, tinha uma mulher adulta, sua amiga adulta e a filha da mulher, uma menina de uns 8 ou 9 anos de idade.
 
Na hora de entrar no brinquedo, foi todo mundo correndo para pegar um carrinho. Eu peguei o meu e fiquei lá, esperando a emoção começar.
 
Aí, me passam as 3 senhoritas e param no meu carrinho.
 
A menina disse:
 
— Não, mãe! Eu quero ir com você!
 
E a mãe respondeu:
 
— Não, Fulaninha. Eu vou com a Beltrana (a amiga). E continuou. — Vai aqui com este moço.
 
E já na época, com uns 14 ou 15 anos, eu não acreditei no que presenciei: uma mãe que deixou sua filha criança sozinha com um estranho no carrinho fechado do Enterprise para se divertir com a amiga.
 
A menina entrou e sentou na minha frente. O lugar dela era um pouco mais baixo que o meu. Então, ela ficava na minha frente no meio das minhas pernas.
 
Se eu estava com um pouco de medo, imagina a menina.
 
Provavelmente, devo ter conversado com ela pois tenho certeza que ela era a filha de uma das mulheres e a outra, era uma amiga da mãe. Mas não lembro muitos detalhes.
 
O brinquedo começou a andar e nós dois estávamos até animados, mas logo o brinquedo começou a pegar velocidade.
 
A menina gritou. Mas e daí? Eu também estava gritando, assim como cada pessoa dentro daquele brinquedo. Faz parte da experiência gritar como se estivesse morrendo.
 
Depois de um tempinho, a menina começou entrar em pânico de verdade. Ela começou a chorar e a pedir:
 
— Socorro, me segura. Eu vou cair.
 
Fazia todo sentido porque quando entrei no carrinho, não tinha nenhum cinto de segurança me prendendo. Eu até me perguntei “Eu não tinha que estar preso em algum lugar como em todos os outros brinquedos?”. Pelo que entendi, a segurança era se agarrar nos ferros. E se é assim, assim a gente faz.
 
O problema é que ela começou a gritar desesperadamente. De verdade verdadeira.
 
— Eu vou cair, eu vou cair. Me segura!
 
Eu gritava:
 
— Não, você não vai cair. Não vai cair!
 
E ela chorava e gritava em pânico cada vez mais:
 
— Socorro! Me segura! Eu vou morrer!
 
Eu já estava muito preocupado. A diversão já tinha ido embora.
 
Aí, eu agarrei a menina. Abracei ela por trás e falava:
 
— Você não vai cair! Eu estou te segurando.
 
E a menina gritava e chorava mais e mais. E eu pensava “Que mãe filha da p*uta. Me deixou uma bomba. A menina vai morrer e sou eu que estou no carrinho com ela.”
 
Eu já nem sabia mais se o carrinho estava de cabeça para baixo, subindo, descendo ou voando para marte. Eu agarrei a menina e tentava acalmar ela:
 
— Calma, você não vai cair, você não vai morrer. – e repetia isto 1 milhão de vezes. — Eu estou te segurando!
 
E foi assim até o brinquedo parar. Eu não aproveitei nada.

Quando o brinquedo parou, lá estava eu abraçado com aquela menina desconhecida. Estávamos exaustos. Foi como se uma guerra tivesse acabado. Parecia que nós dois tínhamos sobrevivido a uma bomba e com os corpos caídos, apenas nos restava a recuperação.

Depois de um tempinho nos recompondo, eu disse para menina:
 
— Viu só? Eu te disse que você não ia cair, nem morrer! Deu tudo certo.
 
A menina já toda plena e recomposta, virou para mim, jogou o cabelo para trás com uma das mãos e disse:
 
— Obrigada, moço!
 
E saiu.
 
Fiquei surpreso. Para ela era como se não tivesse acontecido nada. E eu fiquei lá todo estropiado. Os músculos todos duros de tensão e o principal, uma ânsia de vômito gigantesca.
 
Eu não conheço ela, nem nunca mais vi. Mas eu nunca vou esquecer esta menina e nem a jogada de cabelo para trás que ela fez quando me agradeceu.
 
Até hoje eu fico pensando se o desespero dela era real ou se fazia parte da experiência dela de andar no Enterprise.
 
Eu passei o resto daquele dia jogado nos bancos do Parque esperando o mundo parar de rodar e a vontade de vomitar passar. E eu nunca mais andei no Enterprise.
 
Eduardo Franciskolwisk

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