domingo, 21 de abril de 2013

A amizade de inverno

Todos os anos, no mês de julho, viajo para Santiago, no Chile, para visitar meu pai. Desde a minha primeira viagem para lá, fiquei amigo de alguém muito especial. Pode parecer impossível, mas nunca trocamos telefones, cartas, e-mails. Apesar de não termos nenhum contato, sempre nos encontramos na mesma montanha todos os anos.

Confesso que na primeira vez que o vi, fiquei com receio de ir falar com ele. Porém, dava para ver estampado em seu rosto a solidão que o envolvia e por isso eu fui conhecê-lo. Um detalhe muito importante que ajudou a construir nossa amizade foi que eu não falava bem o espanhol, ele também não.

Nossos pais gostavam da nossa amizade, mas eles nunca se conheceram. Pude perceber que meu amigo também não era chileno, afinal ele sempre ia embora um dia antes de mim. Ou melhor, eu que ia embora um dia depois dele. E é porque só nos vemos no inverno que eu o chamo de meu amigo de inverno.

Em uma de nossas aventuras tive eu que defendê-lo com unhas e dentes de outros meninos que queriam socá-lo e chutá-lo até o derrubar no chão. Eu não deixei. Eles eram em três, nós dois éramos em um, praticamente. Éramos em um porque meu amigo de inverno não se movia, não fazia nada quando estava com medo. Como eu já disse, dei conta do recado sozinho e parei de bater no último quando a mãe dele veio nos separar. Ela me chamou de vários nomes sem classe e quando eu expliquei porque tínhamos brigado ela me chamou de maluco. Eu fiquei com raiva, depois lembrei que já tinha dado uma lição no filho dela a ponto das férias dele serem inesquecíveis e, por isso, me acalmei.

O dia que eu mais ri, foi no dia que eu o encontrei e ele estava com um cachimbo na boca se achando o adulto. Ele fazia uma cara muito engraçada quando estava brincando com aquele cachimbo. Como eu não gosto quando as pessoas fumam, logo peguei o cachimbo, mesmo sendo uma brincadeira, e o joguei longe. Ele não reclamou porque sabia que tudo o que tem fogo faz mal para ele.

Naquele dia, andei de esqui e por muito pouco que não trombo de frente com o meu amigo. Ele dizia que não sabia andar de esqui, mas eu insistia para que ele tentasse, coisa que ele não fez. Então, ele só me olhava. Em seus olhares eu via a solidão.

Tentei fazer uma surpresa para ele: eu ia fazer uma barraca no lugar onde sempre ficávamos para ser o nosso esconderijo secreto. Porém, ele não podia ver eu construindo a barraca, caso contrário não tinha surpresa. Esperei ele ir embora da montanha. Esperei, esperei e cansei de esperar. Mudei o jogo: resolvi chegar mais cedo que ele. Madruguei, madruguei e cansei de madrugar. Todos os dias ele era o primeiro a chegar e o último a ir embora. Assim, não tive a oportunidade de fazer a tal surpresa.

Dias depois o pai dele, o sol, veio buscá-lo e eu disse:

– Não, boneco de neve, não derreta agora.

Mas começava a primavera e ele derreteu.

Não fiquei triste porque sei que ele, no ano que vem, vai estar lá, no mesmo lugar de sempre. A solidão dele me fará vê-lo em todos os invernos.

Eduardo Franciskolwisk

Um comentário:

  1. É uma bela amizade com o Boneco de Neve. Se eu entendi bem, é isso mesmo (corrija-me se eu estiver falando asneira) haha.
    E que venha o próximo ano para se verem logo :D

    Opiniões e um Mundo,
    opinializacao.blogspot.com.br

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