domingo, 21 de abril de 2013

Meu tio e seu celular

Quando eu era criança, um tio chegou em casa, eu não o conhecia. Pareceu-me ser rico, pois estava bem vestido e tinha um celular. Quando eu vi aquele telefone disse:

– Essa coisa funciona mesmo?

– Claro que funciona, acabei de comprar na minha viajem para a Inglaterra – disse ele atendendo ao celular que acabava de tocar.

Logo depois, eu o convidei para entrar, já que meus pais não estavam em casa. Será que ele iria me dar de presente um celular igual ao dele? Esse era o motivo da minha grande hospitalidade com o cara cujo eu nem sabia o nome e nem queria saber. Ele entrou falando com o tal celular e eu acho que a coisa estava falando com ele também. Quando desligou, já foi logo falando num tom de voz alto, que me deu medo.

– Empregado inútil, amanhã você vai pro olho da rua. Onde já se viu? Deixar as minhas ações da bolsa de Nova Iorque caírem...

Eu percebi então, que meu tio era meio burro.

– Se nessa sua bolsa tem coisas que quebram, porque você a deixou com o empregado em Nova Iorque? Trouxesse-a pra cá.

Talvez tivesse um celular lá dentro, e se eu o achasse com certeza seria meu, seria fácil passar a perna naquele meu tio rico.

– Ela estava pesada, e eu não consegui trazê-la. Tive que trazer as bolsas do Rio e de São Paulo. Mas na bolsa do Rio eu só trouxe o Cristo, eu tive medo das praias molharem o meu peixinho, ele é alérgico a água, isso poderia matá-lo e eu não sei o que eu faria sem o meu Jubilau.

O barulho maravilhoso daquela coisa era soado novamente, mas meu tio logo desligou.

– Eu não agüento mais a minha mulher. Ela me telefona dias e noites reclamando do carro que eu dei pra ela, com todo amor e carinho. Só porque não tem duas rodas ela me atormenta o dia todo. Você acredita sobrinho, que ela me ameaçou de morte, dizendo que iria colocar chocolate em pó no meu leite que eu tomo no café da manhã? – contou ele indignado com o meu suicídio diário.

– Você é casado?

– Eu não, mas tenho três filhos lindos, apesar do primeiro Ter nascido sem o braço. Eu fiquei tão triste com isso, mas a felicidade voltou com o segundo filho, ele tinhas os dois braços, só que não tinha a perna esquerda... O terceiro não faltou nada, nasceu com 3 braço e 3 pernas. Eu fiquei tão feliz!

– Uma vez, eu vi um garoto sendo atropelado por um táxi, a roda do carro passou bem em cima da cabeça dele, praticamente só ficou a boca na cabeça, o resto foi mutilado. E a boca ainda conseguiu dizer “Desgraçado, veja só o que você fez com a minha bicicleta...” Mas quais são os nomes dos seus filhos??

– Filhos? Que filhos? – foi a resposta que recebi dele quando estava atendendo o celular.

Meus olhos não saiam daquele aparelho. Desligou o telefone.

— Só essa que me faltava, a minha namorada queria se matar pulando do prédio onde mora. Claro que eu não deixei, mandei ela esperar até amanhã, para que eu pudesse empurrá-la pessoalmente. Ela adorou a idéia.

Eu finalmente tomei coragem e perguntei:

— Qual é a marca do seu celular?

— “Fale Feliz” – disse ele – é a minha empresa. Nosso slogan é “Fale Feliz, ou então devolveremos o seu nariz”

Ele tocou de novo, eu começava a ficar de saco cheio daquela coisa. Esperei ele falar naquela coisa chata e quando desligou foi dizendo num ar melancólico:

— Era o meu melhor amigo me convidando para o seu casamento, mas eu não vou poder ir. Que droga! – gritou e depois repetiu várias vezes – Eu não vou no casamento do meu melhor amigo. Eu não vou no casamento do meu melhor amigo.

— Calma tio – eu falei desesperadamente desesperado – Porque você não vai no casamento do seu melhor amigo?

— É que eu tenho um encontro com a Julia Roberts, no mesmo dia e na mesma hora do casamento. E é lógico que eu prefiro a Julia Roberts que o meu melhor amigo. O pai dela é bem mais gostoso que o pai do meu melhor amigo. É também muito mais sexy. Só de pensar nele eu fico louco!!

A coisa estava ficando feia... Eu já pensava que meu tio era louco, quando ele quando ele não afirmava que era louco. Agora, que ele mesmo disse que estava ficando louco, eu fiquei assustado imaginando o grau de loucura que ele chegaria. E piorando a situação, o cara estava revelando seu lado boiola.

Começamos a conversar mais um pouco e ele confessou que não gostava de ir no dentista, desde o dia que ele sem querer comeu a escova de dente e a caixa do creme dental.

— Tinha gosto de dinossauro mal passado – ele ainda reclamou.

O celular tocou, prometi pra mim mesmo que se ele tocasse de novo, eu quebraria aquilo no meio e faria meu tio comer. Não seria difícil para quem já havia comido uma escova de dentes e a caixa do creme dental.

Ainda falando no celular, ele me deu papel e caneta e mandou eu escrever para ele (ele não sabia escrever!!) o seguinte recado: “Ir às 8:00hs da manhã na caza do meu amigão senhor dentista, para tratar dos meus belos dentes” e foi desse mesmo modo que eu escrevi. O meu tio analfabeto, quando leu aquilo disse querendo me humilhar:

— Ignorante, você não pode ser meu sobrinho, onde já se viu casa com “z”? Você deve ser adotado. Burro. Jumento.

Nesse exato momento o meu pai chega e ao abrir a porta, meu tio levanta assustado do sofá, deixando aquele aparelho chato cair no chão, o tal celular se esborrachou no chão e eu fiquei felicíssimo ao ver os pedacinhos. Mas meu tio pensou algo diferente quando viu. Ele só disse:

— Droga! Esqueci de colocar as pilhas!

Uma hora depois tudo estava explicado, meu tio, que não era meu tio, voltou para o hospício. Resolvi então sair de casa, fui até a porta da frente e a abri, para sair. Meu pai perguntou:

— Onde você está indo meu filho?

E eu respondi aonde ia:

— Vou buscar a bolsa que estão estragando em Nova Iorque.

Eduardo Franciskolwisk

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