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domingo, 18 de junho de 2017

10 anos de blog


Neste ano de 2017, este blog completou 10 anos de existência.

No dia 03 de junho de 2007, um domingo, fiz minha primeira postagem que tinha o título “Dinheiro de Papel”. No mesmo dia, postei mais dois outros textos: “Eu odeio festas!” e “Excesso de sinceridade”. Eles deveriam estar guardados, assim como muitos outros, mas naquele dia resolvi que gostaria que alguém os lesse.

Durante a faculdade, cheguei a escrever alguns contos para um jornal local. De graça. Eles ganhavam uns trocados e eu não. E certa vez, escrevi uma crônica real falando verdades de alguém com influência na cidade. Não me publicaram. Outro jornal me publicou. De graça também, e ficou muito claro que o jornal não era responsável pelas opiniões de terceiros. No caso a minha. Se alguém fosse se ferrar, este alguém seria exclusivamente eu. Só eu. Não me pareceu muito justo: perder tempo escrevendo minhas verdades, não ganhar dinheiro nenhum com isto enquanto o jornal ganharia seu dinheiro normalmente com vendas e publicidades e, finalmente, o jornal não compraria a minha briga. Minha e de inúmeras outras famílias.

Ficou claro que os jornais de Barretos eram pequenos porque eram medrosos. Que visavam o lucro e não a verdade. Então, perdi o tesão de mandar meus textos para eles. Geralmente, fazer papel de trouxa me deixa meio decepcionado. Ali, meu amor pelo jornalismo morreu um pouco. De lá pra cá, poucas foram as vezes em que abri um jornal local para ler.

Havia outra coisa que me incomodava muito. Minha ansiedade em ser publicado. Eu não sabia em que dia meus textos sairiam e isso me deixava com o coração a mil. Ou seja, publicar em jornal impresso não era um bom negócio para mim.

Naquela época, os blogs estavam na moda. Eram diários pessoais, mas os segredos ali escritos eram abertos a todos ao invés de ficarem trancados a sete chaves como no passado. Talvez fosse o começo do que vemos hoje nas redes sociais: “Soltando um barro” – com uma foto da pessoa na privada fazendo joinha.

Então, achei que criar um blog seria uma ideia genial: eu escreveria e publicaria o que quisesse – sem censura, a publicação aconteceria de forma instantânea, continuaria fazendo de graça, continuaria me fodendo sozinho se alguma postagem desse merda e ainda tinha a vantagem de ser lido por pessoas de qualquer parte do mundo. Só vantagens – “Um pouco é muito pra quem não tem nada”.

Com o passar do tempo, a maioria dos blogs foram abandonados. Este aqui também teve seus momentos de “vou dar um tempo”. Confesso que hoje, ele não tem mais a atenção que eu queria dar. Como vcs podem ver, no ano passado (2016) publiquei somente uma postagem. Em 2017, já estamos em junho e esta será a primeira postagem do ano.

Eu gostaria mesmo de me dedicar mais a este blog: mas não tenho mais tanto tempo. Trabalho de manhã, de tarde e de noite. Das 9 da manhã às 10 horas da noite. Ganhar dinheiro se tornou mais importante do que me sentir realizado. Esta é a vida quando crescemos.

Mesmo assim, nunca abandonei este blog por completo. Sempre que alguém publica um comentário em uma das minhas postagens, recebo um e-mail com o que a pessoa escreveu, leio e sempre tento responder. Me sinto muito feliz com isso.

Para finalizar, devo dizer que este blog me ajudou e me ajuda muito. É aqui que desabafo alguns sentimentos que só vão embora de mim após escrevê-los. Outras vezes, minha revolta é tão grande que só me acalmo após escrever. É a minha terapia grátis. Acho que gostar de escrever nasceu comigo. Pode ser que eu escreva mal e que minha ansiedade afete expor minhas ideias de forma que fique fácil das pessoas entenderem, mas quando escrevo tento entender a mim e aos outros. Então, por mais raro que isso vem se tornando, nunca vou deixar de fazê-lo.

Nestes 10 anos de existência, até o dia de hoje (18 de junho de 2017) o blog teve 192.100 visualizações de página de acordo com as estatísticas do Blogger e 137.269 visualizações de páginas segundo o Google Analytics.

Obrigados a todos que me visitaram! Voltem mais vezes nos próximos 10 anos.

Eduardo Franciskolwisk

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

O menino feliz demais

Este conto é dedicado ao Guilherme.

Havia um menino feliz. Feliz demais na opinião de muitos. Sua alegria era tão enérgica que, até dormindo, raios de felicidade saíam de seu corpo faiscando como se fossem pequenos curtos-circuitos. Isto não era visível, mas era possível sentir.

Sempre que o menino acordava queria que todos acordassem junto com ele. A vida era bela demais para que ele deixasse os outros perdê-la por um instante sequer. Ele era empolgado consigo mesmo e até sozinho conseguia manter elevado seu nível de entusiasmo com a vida. E isto é dificílimo de conseguir.

Sua normalidade era sempre acima dos demais, mais intensa. Ao falar, o tom de voz sempre era aumentado. Ao brincar, usava todas as energias do seu corpo. Ficar sentado raramente funcionava quando havia outras opções mais interessantes ao seu redor. Seus pensamentos pipocavam um atrás do outro, sem nenhum descanso, de forma bem bagunçada. Ele parecia uma criança normal, como a maioria das outras crianças eram.

No entanto, havia algo naquele menino que incomodava demais as pessoas que conviviam com ele. Começaram a dizer que ele estava fora do padrão e que era doente. Diziam que era um caso raro. Logo estava diagnosticado: felicidade demais. Era uma doença. Assim, como a tristeza em excesso, a felicidade de sobra também precisava ser neutralizada.

Devido à raridade da enfermidade, o caso foi considerado questão de Estado, segurança nacional. Se fosse contagioso, o mundo ficaria de pernas para o ar. Se não fosse, também não era um exemplo a ser seguido.

Foi montada uma mega operação para tentar neutralizar a felicidade do garoto. Muitas cabeças, das mais inteligentes, começaram a pensar em como tirar toda aquela euforia do menino. Tiveram a primeira ideia: prenderam-no na imaginação de um garoto normal, pois os especialistas pensavam que “Um lugar calmo e com pensamentos leves, ordenados e corretos será o suficiente para neutralizá-lo.”. Mas não foi. Aquela simples imaginação normal de outro garoto não aguentou os pensamentos eufóricos do menino e logo se rompeu, livrando-o daquela prisão.

Estando livre, percebeu que precisava fugir. Mais cedo ou mais tarde, as pessoas que o prenderam viriam atrás dele. Então, focou toda sua energia em um só objetivo: fugir. Mas era muito difícil para ele se concentrar em uma só tarefa quando ao seu redor havia tantas outras coisas interessantes. Deu início à sua fuga, mas esta não durou muito tempo porque logo depois estava brincando com filhotes de cães em um campo aberto e cheio de flores. Era muito difícil focar em um só propósito.

Então, ele foi novamente raptado por aquela sociedade. Amarraram-no em pé a uma árvore de forma tão forte que não conseguia mexer nenhuma parte do seu corpo. Estava com as mãos para trás e logo colocaram uma venda em seus olhos para que não visse o que aconteceria. A segunda ideia era usar a pílula da neutralidade, que ainda estava em testes iniciais. Devido às circunstâncias ninguém se opôs, pois seria mesmo necessário testá-la em humanos.

Abriram a boca do garoto e o forçaram a tomar aquela pílula. Todos os dias, uma pessoa diferente da sociedade ia até o garoto amarrado na árvore e o forçava a engolir aquele medicamento. Isto se repetiu por meses até que meses se tornaram anos. Desamarram-no quando foi dado por curado: já não havia energia, nem felicidade ali. Não incomodaria mais ninguém. Agora neutro, o menino estava livre para viver sua vida da forma como lhe fora escolhida. Foi assim por algum tempo.

Com o passar dos anos, a neutralidade do menino foi ficando de lado e ele começou a sentir novamente uma pontadinha de alegria na alma. Era uma boba sensação de felicidade misturada com empolgação. Mais velho e experiente, percebeu que não poderia demonstrar isto para ninguém. Deitado em sua cama, fez planos de fugir para uma outra sociedade. Tentando dormir, mexia sua perna de um lado para o outro, como sempre fizera antes de ter sido neutralizado.

A fuga aconteceu uma semana depois. As pessoas ditas neutras não notaram a ausência do menino porque não se importavam com outras pessoas neutras. A sociedade estava bem mais preocupada em neutralizar pessoas que eram diferentes em sua essência. Assim, aquela sociedade foi extinta 50 anos depois. Na realidade, a neutralidade era bem incomum. No fundo, no fundo, todos tinham sua peculiaridade que lhes tiravam a característica de neutros e para não criarem raízes presos à árvore, preferiam sumir com o vento.    


Eduardo Franciskolwisk

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