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terça-feira, 10 de novembro de 2020

Enfim, a hipocrisia


 
Estamos em época de eleição e todas as vezes que vejo um debate onde uma pessoa normal faz uma pergunta aos candidatos, viajo na minha imaginação.
 
Eu me imagino perguntando para os políticos candidatos à reeleição o seguinte:
 
“Vocês são os comandantes do Sistema Único de Saúde (SUS) e sempre que estão no cargo dizem que o atendimento da saúde para a população é muito bom. Então, por que quando vocês precisam de atendimento médico, vão aos Hospitais Sírio-Libanês ou Albert Einstein em vez de de irem para um hospital do SUS, sistema que vocês administram? Seria falta de confiança no próprio taco?”
 
Eu nunca engoli presidentes, governadores e prefeitos usarem sistema de saúde particular enquanto obrigam o resto da população a usar o SUS.
 
Bolsonaro, Dilma, Lula. Que eu me lembre, todos iam para os hospitais mais caros do Brasil para fazerem cirurgias ou consultas. Pois eles deveriam ser obrigados a usarem o Sistema Único de Saúde.
 
Deveriam ser obrigados também a terem filhos e netos matriculados em escolas públicas. É irônico e um tiro no pé que o dirigente maior e administrador da educação pública tenha filhos e netos estudando em escolas particulares. Mais do que isto: é um atestado de incompetência. É como se o dono de uma escola particular tivesse seus filhos estudando numa outra escola particular concorrente.
 
É inimaginável que o presidente da Coca-Cola fosse viciado em Pepsi e só pedisse esta bebida quando estivesse em público. É um absurdo que o dono da Microsoft tivesse um celular com Android em detrimento do Windows Phone. Peraí... Este último caso aconteceu de verdade. Então, tempos depois, o que aconteceu com Windows Phone? Morreu. Por quê? Porque era ruim e até o dono dele sabia.
 
O motivo dos políticos não usarem os serviços públicos que administram é óbvio: porque são serviços ruins! Mesmo assim, eu me imagino perguntando a eles só para ouvir as respostas que eles dariam. Um deles, com certeza, juraria de joelhos que só usa o SUS. O outro iria falar, falar e falar e não responderia nada. Uma outra diria que o atendimento no SUS é igualzinho ao do Albert Einstein, ela só não vai no SUS para não tirar a vaga de quem não pode pagar. Todos eles mentiriam em suas respostas, mas tenho uma curiosidade muito grande em saber o que eles responderiam.
 
Eu até inventei o meme acima que ilustra esta postagem. É uma foto do Bolsonaro com os dizeres:
 
“Manda você pro SUS,
mas ele vai pro Albert Einstein.
 
Enfim, a hipocrisia.”
 
Eduardo Franciskolwisk

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

O gosto de uma mentira


 
Um dia destes, liguei na padaria de um supermercado e perguntei:
 
— Vocês têm tortinha de frango pronta?
 
— A nossa acabou, mas se você encomendar eu peço para assar. Aí, você passa aqui e pega. – respondeu a mulher do outro lado da linha.
 
Eram 13:20 horas da tarde. Então, eu quis saber:
 
— Que horas eu posso passar aí?
 
— Pode vir daqui meia hora.
 
Agradeci e desliguei o telefone. Pensei comigo mesmo “Com certeza vai demorar um pouco mais, então, quando for 14:00 h da tarde, eu saio daqui e chego lá às 14:10. Em 50 minutos, com certeza as tortinhas de frango estarão prontas.” E fiz exatamente assim.
 
Quando cheguei lá, antes de dizer alguma, a moça me perguntou:
 
— Você é o moço que veio buscar as tortinhas de frango?
 
— Sou sim, – respondi – elas já estão prontas?
 
— Ainda não, elas estão terminando de assar. Falta só 5 ou 6 minutinhos – afirmo ela.
 
— Tudo bem, não tem problema. Eu espero. – disse na maior inocência – Enquanto isso, vou olhando outros produtos aqui na vitrine da padaria.
 
Todo mundo sabe que 5 ou 6 minutos passam em um piscar de olhos. Pedi que a moça embalasse as saladas de frutas que minha mãe tinha pedido para eu comprar. Da vitrine, escolhi pão de queijo e um outro pão com frango. Sim, adoro comer frango. Então, um homem pesou e me deu os pacotes. Na etiqueta de preço que a balança imprimiu, além do valor estava também o horário: 14:11 h.
 
Depois, fiquei olhando umas caixas de bombons para matar mais alguns minutinhos. Olhei as placas de preços e de avisos, olhei a marca do conversor digital da TV que tinha lá. Olhei tudo até cansar de olhar. Aí, quando já tinha passado mais de 10 minutos, fui para o balcão pegar a encomenda.
 
Perguntei para a moça:
 
— A minha encomenda já está pronta?
 
— Ainda não, mas está terminando de assar.
 
— Mas não estava terminando de assar quando eu cheguei aqui, caralho? – pensei, mas não falei. — Tudo bem. Eu espero.
 
— Você não tem nada para comprar no supermercado?
 
— Não, hoje eu só vim comprar as tortinhas de frango que encomendei. Eu vim aqui ontem à noite e comprei tudo o que eu precisava. Hoje, só as tortinhas mesmo.
 
— Você é ansioso igual a mim. Não sabe esperar. – observou ela.
 
— E por acaso existe um jeito certo de se esperar? Já inventaram um manual com instruções detalhadas ou é só ficar parado aguardando o tempo passar? – pensei, mas não falei.
 
Sinceramente, achei aquela conversa estranha, então, saquei que ela poderia estar mentindo para mim. Mas esperei mais um “pouco”.
 
Depois de 20 minutos esperando, eu já tinha me cansado. E perguntei de novo se a encomenda já estava pronta.
 
A moça disse:
 
— Não, mas já está quase saindo.
 
— Fala a verdade, porra! “Moço, me desculpe, eu esqueci da sua encomenda e coloquei para assar na hora que você chegou aqui. Agora, estou te fazendo de otário para ver quanto tempo você aguenta”. Ou diz “Vai demorar 30 minutos, 1 hora, 1 mês ou uma eternidade.” Mas diga a verdade, saco. – pensei, mas não falei.
 
— Moça, eu acho que não vou levar mais a encomenda porque já faz um “tempinho” que estou aqui e eu tenho horário – mentira minha – e não posso esperar.
 
— Não, espera mais um pouquinho. Vai ali pagar e já vai estar pronta.
 
Nisto eu já estava impaciente. Fiz questão de mostrar decepção e insatisfação no meu rosto.
 
— Tudo bem, vou ali pagar, mas acho que não vou levar as tortinhas de frango porque você é uma mentirosa do cacete! Está me enrolando faz um tempão. Eu tenho cara de otário, sua vagabunda? – pensei, mas não falei.
 
— Tudo bem, lá no caixa eu decido se vou levar ou não.
 
E lá no caixa eu fiquei pensando: levo ou não levo? Pago ou não pago? E decidi pagar e levar aquelas bostas. Paguei e ouvi a moça gritando lá da padaria “Está pronto, moço. Só falta embalar!”.
 
Quando ela me entregou a encomenda, pediu desculpas.
 
— Me desculpa pela demora, a minha chefe até ficou brava comigo.
 
— Você me enganou, sua vadia! Mentiu para mim. Espero que sua chefe coma o seu bumbum e não te ligue no dia seguinte. Quero que você se foda, nunca mais encomendo as coisas aqui. – pensei, mas não falei.
 
— Olha, eu esperei porque você me disse que seriam 5 minutinhos. Não foram 5 minutos, foram bem mais. Se eu soubesse que seria este tempo todo, eu não teria esperado.
 
Peguei a encomenda e fui para casa. Aí, olhei na nota fiscal o horário que eu paguei: 14:37 h. Esperei mais do que 26 minutos. Ou seja, faltava muito tempo para as tortinhas ficarem prontas. Provavelmente, nem tinham começado a assar e resolveram mentir para mim dizendo que “só falta mais uns minutinhos” toda vez que o idiota aqui perguntasse.
 
As tortinhas estavam uma delícia, como sempre, mas o gosto de ter sido feito de otário, este foi amargo e eu não vou esquecer tão fácil. 
 
Eduardo Franciskolwisk 

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